terça-feira, 30 de outubro de 2007

Espero que vejas algo além,
Quando não houver mais o aquém exposto.
Tudo o que sabias será nada,
Diante da tela rota, violada pela vida
Partida.

Mas, se ainda assim ficares,
Olhos claros, ralos, esparsos na superfície,
Que ouças, sintas, intuas, que seja...
As melodias que vibram somente aos que seguem
Além, do que aparenta ser tudo.

Andrea
30/10/2008

Dostoievskianas ...

“O homem, às vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato. No caso, é inútil recorrer à história universal; interrogai a vós mesmos, se sois homens e vivestes um pouco sequer. E, quanto à minha opinião pessoal, creio que amar apenas a prosperidade é, de certo modo, até indecente. Bem ou mal, quebrar às vezes algo é também muito agradável. No caso, não estou propriamente defendendo o sofrimento e tampouco a prosperidade. Defendo… o meu capricho e que ele me seja assegurado, quando necessário. O sofrimento, por exemplo, não é admitido nos vaudevilles, eu sei. No palácio de cristal, ele é simplesmente inconcebível: o sofrimento é dúvida, é negação, e o que vale um palácio de cristal do qual se possa duvidar? E, no entanto, estou certo de que o homem nunca se recusará ao sofrimento autêntico, isto é, à destruição e ao caos. O sofrimento… mas isto constitui a causa única da consciência. Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver, é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está infinitamente acima do dois e dois. Depois de dois e dois, certamente, nada mais restará, não só para fazer, mas também para conhecer. Tudo o que será possível, então será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na comtemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas pelo menos poderemos espancar a nós mesmos, de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada.” (2.000, p. 48)

Pra ler mais: DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2000.

 
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