sexta-feira, 27 de abril de 2007

Sexta-feira

Da chuva que passou ficou o tempo.
Seco, só e nu, nenhum lamento.
No asfalto a borracha canta os freios.
Cheiro de queimado, solo, negro.

Dentro, a poesia ficou muda,
Tonta de cinzentos ares mofos.
Vozes que se calam, fogem gritos
Dia de silêncio, tédio em luto.

E se fossem vivas só palavras?
Doces, melodias em sussurros.
Toques, fossem sempre, gentilmente
Quentes, 32 graus, pele nua.

Lá ia eu dizer já que te amo.
Ia em ti amar de mil maneiras.
Pena que o que eu sei já não me engana.
Morre na poeira ao fim do dia.



2004

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Flores sem Cartão


Eu pensei que você tinha notado:
Meu sorriso era só brincadeira.
Preste atenção no que eu não disse:
Tudo é tão claro quando eu nada sinto.

06 de novembro de 2001

Amor: de 20 a 30.

Não me venha com angústias
Embrulhadas pra presente.
Tenho as minhas,
Tem as suas.

Não me sirva carências
Em bandeja de prata:
Tenho-as na despensa,
Em conserva.

Leve daqui suas feridas:
Não as abri, nem as curei.
Use alvejante pra lavar seu sangue
da minha pele branca.

Meu beijo: antisséptico bucal.
Meu coração: do freezer ao microondas
Mas não pra você.
Só pra você.

2001

Quererê

Quero muito ...
E de ti, por querer tanto,
Quero sim, quero mais ...
Se não outros.

Vou querendo e que tanto quero ...
Desespero em desquerer ter,
Saber ser,
Sem crer.

Desquerendo o que em mim queria,
Desembrulho outras de mim:
As que nunca quiseram sempre,
As que querem se for para bem.

Meus quereres,
Os quero longe:
não cabem em mim.




2007

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Sabatina

Era sábado,
Sem sombra de dúvida.
Tão sábado quanto poderia ter sido
Um dia de promessa.

Sem velas:

Aos sábados,
Só preces veladas,
Procissões profanas,
Aos santos sem votos.
Pedidos perdidos,
Rosário de contas
De cristal barato,

Sextavado.

Era um sábado,
Como todos os outros:
Cotidiano,
Reinventado.
De pecados remissíveis,
Condenáveis
Em quaisquer
Não-sábados.

Aos amores sabatinados,
Naquela pré-noite de sábado,
Oro aos domingos:

Alívio.



2007

segunda-feira, 23 de abril de 2007

De novo, Vinícius.


Acabei de assistir ao documentário "Vinicius". Lindo, simples, despretensioso, raro, como Vinicius. Pra celebrar:

POÉTICA

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.


Vinicius de Moraes
Nova York, 1950

In: Nova Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Agruras do meu velho mac

Amigos, tenho tido algumas dificuldades técnicas para manter o blog atualizado diariamente, como eu gostaria. Eu tenho um mac muito velho que, aliás, nem é meu, e que apesar de fofo já apresenta sinais de velhice, como sistema operacional pré-histórico e incompatibilidades diversas com navegadores em geral. Então, tem sido um parto conseguir postar alguma coisa, mas queria agradecer a todos os coments que eu ainda não consegui responder e que me fazem continuar burlando o tempo e assaltando os computadores vizinhos só pra passar por aqui. Beijos.

Vermelho-Verdade

Não foi pra você
A melhor poesia.
A seda rasgada,
Cantada de esquina

Não foi pra você meu pior vexame
Minha grande loucura
A dor mais sofrida

Pra você, só foi o que eu tinha
À mão, de improviso,
No embrulho sem fita:

A vida sem filtro,
A sem-cerimônia,
O eu sem vergonha,
O sol de domingo,
Os olhos sem lápis,
A boca mordida,
O amor por inteiro,
Verdade sem tinta.


2004

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Pausa


Café se mistura ao ventilador,
Estou tão presente.

No fundo da xícara, melada no açúcar
Sou tempo,
Fração do seguinte momento,
Indício de incerta existência.

Enxergo no pires,
Em bolhas de âmbar,
Silêncio.

Ao lado, só, segue a vida.


Andrea
2004

terça-feira, 10 de abril de 2007

Meu Primeiro Poeta

Eu não vim de uma família com hábitos de leitura, meu pai não tinha uma biblioteca em casa, minha mãe não me dava livros de presente nem lia estórias pra eu dormir. Engraçado, acho que, para mim, isso não fez a menor diferença. Eu sempre gostei de ler, escrever, desenhar... sem que ninguém precisasse me incentivar para isso.
Meu primeiro poeta foi Vinícius, claro. E eu nem me lembro como o conheci. Mas me lembro bem dos "Sonetos" que encantavam meus 14 anos. Pra não esquecer:


O mais-que-perfeito


Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me!

Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes...
Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!

Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te...

Vinicius de Moraes
Montevidéu, 01.11.1958
in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu"
in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"

Pra ler mais: www.viniciusdemoraes.com.br

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Por que publicar poesia?


Antes, era fundo de gaveta. Agora, pasta de arquivos pessoais. Como me disse o Jair, "é engraçado saber que alguém que você conhece escreve poesia, porque quem escreve poesia sempre esconde o que escreve".
Na semana retrasada, eu assisti a uma oficina de literatura na Univap, numa sala do quinto período de Letras. O escritor palestrante, depois de expor sua poesia cantada e escrita, teve que insistir muito para que os alunos que escreviam ou compunham apresentassem seus textos. Passada a "semgraçisse" inicial, as pessoas começaram a ler seus poemas, alguns interpretaram histórias, contaram casos, tocaram e cantaram com um talento surpreendente. Eu, que estava ali cumprindo minhas horas obrigatórias de estágio-docência, saí de lá emocionada. É muito legal ver gente comum, envolvida em atividades comuns, criando meios de linguagem e expressão artística incomuns.
Para essas pessoas, não há espaço nos meios convencionais. É difícil e caro publicar um livro - mais ainda divulgá-lo e vendê-lo, gravar um CD, participar de saraus, eventos... mas é fácil, muito fácil colocar seu trabalho na internet.
Por isso, estou colocando meus poeminhas aqui, tirando do fundo da pasta de arquivos pessoais um ou dois deles por dia. Eles fazem parte de um livro que eu comecei a escrever em 2003, entre os textos de propaganda, chamado "Letras do Dia". Espero, amigos queridos, que vocês gostem e sintam-se à vontade para comentar e participar, também, com seus textos. Pra começar o dia, pra ler mais belas letras do que as do dia-a-dia, pra sentir que a gente se faz mais gente quando se expressa em poesia.

Presença nº 5

Eu amo o cara que passa
Longe
Em minha memória
Sempre
A tempo Presente
Vivo
Num passado novo.

Passa reinventado,
Passo e permaneço,
Muda
Lhe reitero,
Morta, lhe vivifico.

Eu vejo o cara que passa
Em tantas e outras caras
Antes
Que eu mesma saiba
Quão caras a mim serão.

Antes que me soubesse,
Tudo o que não me saiba
Ainda.


Andrea de Barros
2006

Idade


É o tempo,
Que lhe corta os dias
O mesmo
Que me conta os casos,

Dos quandos,
Que eu não mais ouvia,
Aos comos
Sem porquês dos atos.

É dele
Meu desenho à pele,
O mapa pelo qual escapo
Da velha juventude eterna.

Ao tempo
Meu melhor bom dia.
Sem medo do que o sol me tira
Me farto do que a luz me soma.


Andrea de Barros
2004

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Canção para não dormir

Por que escrever?
Se é preciso amar, fazer,
sorrir, viver até…
morrer.

Por que da solidão
Nascem as letras?
Tão sem pra quem,
Mudas,
Inutéis.

Quem quer ver meu lado avesso?
Botar preço no poema?
Viver de poesia?

Histeria.

Não há tempo à ironia
E pra qualquer melancolia:
Tratamento.
Duas pílulas por dia.


Andrea de Barros
2007

Bakhtin: teoria da prosa em forma de poesia


Quanto mais leio Bakhtin, mais me impressiona a poesia da sua escrita teórica. Alguns trechos inspiradores:

"A vida e a arte não devem só arcar com a responsabilidade mútua mas também com a culpa mútua. O poeta deve compreender que a sua poesia tem culpa pela prosa trivial da vida, e é bom que o homem da vida saiba que a sua falta de exigência e a falta de seriedade das suas questões vitais respondem pela esterilidade da arte." (2003, p. XXXIII)

"Quantos véus necessitamos tirar da face do ser mais próximo - que nela foram postos pelas nossas reações casuais e por nossas posições fortuitas na vida -, que nos parecia familiar, para que possamos ver-lhe a feição verdadeira e integral. A luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em um grau considerável, uma luta dele consigo mesmo." (2003, p. 4)

“Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão de forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Questão do grande tempo.” (2003, p. 410)


Para ler mais:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Literatura e Liberdade compartilham muito mais que as letras iniciais. Escrever sempre foi meu maior exercício de liberdade, meu campo de ação sem limites.
Já o texto, corpo expressivo da Literatura, se obriga a seguir regras de gênero, de mercado, de ideologia, enfim, dos meios dos quais depende e das funções às quais se presta. Trabalhar com texto publicitário, há 15 anos, me ensinou que para cada palavra existe um espaço, um tempo, um valor e muitos objetivos que precisam ser respeitados. Não há verba publicitária para expressão artístico-pessoal, assim como não há, nem nunca deverá haver, preço para um poema.
Eu acabo de concluir minha dissertação de mestrado, na área de Literatura. Depois de pouco mais de dois anos num mergulho livre e fundo no universo literário, percebi que a liberdade do escritor, do leitor, do teórico e do pesquisador são as mesmas. A leitura e a análise do texto literário podem ser tão livres quanto a sua criação, já que o objeto literário só se mantém vivo e atemporal quando aberto a múltiplas interpretações.
Essa experiência acadêmica com o texto, na Literatura e sobre a Literatura, me estimulou ainda mais a escrever livremente, retomar minhas poesias, meu blog e, quem sabe, abrir novos canais de liberdade e expressão. É nesse ponto que surgem esses "Diálogos e Intertextos", espaço para mim, para você, para textos lidos, relidos e translidos.
Já tive outros blogs, como o Letra Sete e o Letras do Dia... e abandonei-os completamente depois de alguns posts e meses. Não os lamento. O abandono é parte dessa liberdade que só a escritura traz a mim e, desejo, possa levar também a quem me lê.

 
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