“O homem, às vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato. No caso, é inútil recorrer à história universal; interrogai a vós mesmos, se sois homens e vivestes um pouco sequer. E, quanto à minha opinião pessoal, creio que amar apenas a prosperidade é, de certo modo, até indecente. Bem ou mal, quebrar às vezes algo é também muito agradável. No caso, não estou propriamente defendendo o sofrimento e tampouco a prosperidade. Defendo… o meu capricho e que ele me seja assegurado, quando necessário. O sofrimento, por exemplo, não é admitido nos vaudevilles, eu sei. No palácio de cristal, ele é simplesmente inconcebível: o sofrimento é dúvida, é negação, e o que vale um palácio de cristal do qual se possa duvidar? E, no entanto, estou certo de que o homem nunca se recusará ao sofrimento autêntico, isto é, à destruição e ao caos. O sofrimento… mas isto constitui a causa única da consciência. Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver, é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está infinitamente acima do dois e dois. Depois de dois e dois, certamente, nada mais restará, não só para fazer, mas também para conhecer. Tudo o que será possível, então será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na comtemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas pelo menos poderemos espancar a nós mesmos, de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada.” (2.000, p. 48)
Pra ler mais: DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2000.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Dostoievskianas ...
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Andrea
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segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Existe "eu" fora do texto?
Acabei de ler uma matéria na Folha Online, sobre um autor polonês que se tornou suspeito de um crime ainda sem solução, ocorrido há mais de 5 anos, por causa de seu livro "Amók", no qual ele narra detalhes desse assassinato que, segundo o investigador, eram de conhecimento apenas da polícia e, certamente, do próprio assassino. A questão apontada na matéria é se ele realmente resolveu descrever seu crime perfeito, por orgulho ou algo do gênero, ou se apenas se utilizou das informações veiculadas pela mídia e foi além, criando situações fictícias que coincidem com os fatos reais levantados e conhecidos somente pela polícia.
A minha questão é a seguinte: até que ponto a visão dos investigadores, a análise dos indícios encontrados no estudo do caso, faz parte do real ou da ficção, já que tudo sobre o que a mente humana se debruça só pode ser entendido por ela por meio de interpretação?
Outro ponto a considerar é a dimensão ocupada pelo autor no universo textual criado por ele. Num estudo de teoria literária, o autor a ser analisado por meio de seu texto, pela investigação da voz autoral, nunca é uma "pessoa-em-si", existente fora do texto, mas sim, uma categoria narrativa, chamada de "autor secundário", por Bakhtin.
É muito fácil e raso interpretar um texto literário como autobiográfico a priori, fazer conexões entre a vida do autor e as vidas criadas por ele em seu texto. Não sei se o autor de "Amók" é culpado ou inocente e espero que os investigadores saibam como chegar à solução desse crime, mas sei que nós, leitores e escritores, não podemos ser inocentes ao olhar para o texto literário apenas como espelho do autor. Muito mais que refletir a vida, a literatura cria vidas.
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Andrea
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terça-feira, 7 de agosto de 2007
Anna Akhmatova
Descobri, por acaso, um poema de Anna Akhmatova chamado "Ele gosta...", de 1910, e queria muito saber de que livro ele faz parte. Se alguém tiver uma dica, por favor, acene ;-)
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Andrea
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quinta-feira, 5 de abril de 2007
Bakhtin: teoria da prosa em forma de poesia
"A vida e a arte não devem só arcar com a responsabilidade mútua mas também com a culpa mútua. O poeta deve compreender que a sua poesia tem culpa pela prosa trivial da vida, e é bom que o homem da vida saiba que a sua falta de exigência e a falta de seriedade das suas questões vitais respondem pela esterilidade da arte." (2003, p. XXXIII)
"Quantos véus necessitamos tirar da face do ser mais próximo - que nela foram postos pelas nossas reações casuais e por nossas posições fortuitas na vida -, que nos parecia familiar, para que possamos ver-lhe a feição verdadeira e integral. A luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em um grau considerável, uma luta dele consigo mesmo." (2003, p. 4)
“Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão de forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Questão do grande tempo.” (2003, p. 410)
Para ler mais:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
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Andrea
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Já o texto, corpo expressivo da Literatura, se obriga a seguir regras de gênero, de mercado, de ideologia, enfim, dos meios dos quais depende e das funções às quais se presta. Trabalhar com texto publicitário, há 15 anos, me ensinou que para cada palavra existe um espaço, um tempo, um valor e muitos objetivos que precisam ser respeitados. Não há verba publicitária para expressão artístico-pessoal, assim como não há, nem nunca deverá haver, preço para um poema.
Eu acabo de concluir minha dissertação de mestrado, na área de Literatura. Depois de pouco mais de dois anos num mergulho livre e fundo no universo literário, percebi que a liberdade do escritor, do leitor, do teórico e do pesquisador são as mesmas. A leitura e a análise do texto literário podem ser tão livres quanto a sua criação, já que o objeto literário só se mantém vivo e atemporal quando aberto a múltiplas interpretações.
Essa experiência acadêmica com o texto, na Literatura e sobre a Literatura, me estimulou ainda mais a escrever livremente, retomar minhas poesias, meu blog e, quem sabe, abrir novos canais de liberdade e expressão. É nesse ponto que surgem esses "Diálogos e Intertextos", espaço para mim, para você, para textos lidos, relidos e translidos.
Já tive outros blogs, como o Letra Sete e o Letras do Dia... e abandonei-os completamente depois de alguns posts e meses. Não os lamento. O abandono é parte dessa liberdade que só a escritura traz a mim e, desejo, possa levar também a quem me lê.
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Andrea
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