quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Enquanto você chora no banheiro,
o tempo lhe consome.
É hora de fazer planos, pagar impostos, guardar recibos, lembrar de fazer...

Pelo ralo você desliza os sorrisos que foram nossos, minha música, seus saltos, meu perfil ... enquanto eu tenho fome, sinto sede, preciso dormir.

Você sempre tão excessiva, exagerada, deprimida... eu, nunca interessado.

Escreva, dance, ria e assim, me deite em paz.

Só o texto vinga.

Para ninguém

Hoje pode-se escrever na areia, mandar mensagens em garrafas através do oceano, pombos-correios errantes, e-mails, cartas imediatas... sem perfume.
Pode-se escancarar a alma, derrubar paredes, jorrar poesia em liberdade... sem tocar ninguém.
Sem privacidade, sem censura, sem que ninguém se incomode... nem se importe.

Hoje

Às vezes é tão vazia
a vida
adulta.

o corredor sem brinquedos,
na casa
tardia.

Natal sem magia,
surpresa,
segredos…


e os desejos continuam,
tantos.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Espero que vejas algo além,
Quando não houver mais o aquém exposto.
Tudo o que sabias será nada,
Diante da tela rota, violada pela vida
Partida.

Mas, se ainda assim ficares,
Olhos claros, ralos, esparsos na superfície,
Que ouças, sintas, intuas, que seja...
As melodias que vibram somente aos que seguem
Além, do que aparenta ser tudo.

Andrea
30/10/2008

Dostoievskianas ...

“O homem, às vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato. No caso, é inútil recorrer à história universal; interrogai a vós mesmos, se sois homens e vivestes um pouco sequer. E, quanto à minha opinião pessoal, creio que amar apenas a prosperidade é, de certo modo, até indecente. Bem ou mal, quebrar às vezes algo é também muito agradável. No caso, não estou propriamente defendendo o sofrimento e tampouco a prosperidade. Defendo… o meu capricho e que ele me seja assegurado, quando necessário. O sofrimento, por exemplo, não é admitido nos vaudevilles, eu sei. No palácio de cristal, ele é simplesmente inconcebível: o sofrimento é dúvida, é negação, e o que vale um palácio de cristal do qual se possa duvidar? E, no entanto, estou certo de que o homem nunca se recusará ao sofrimento autêntico, isto é, à destruição e ao caos. O sofrimento… mas isto constitui a causa única da consciência. Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver, é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está infinitamente acima do dois e dois. Depois de dois e dois, certamente, nada mais restará, não só para fazer, mas também para conhecer. Tudo o que será possível, então será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na comtemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas pelo menos poderemos espancar a nós mesmos, de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada.” (2.000, p. 48)

Pra ler mais: DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2000.

sábado, 29 de setembro de 2007

Escrevo para quem é, foi ou será triste. Se triste é meu léxico, não há por que negar-lhe a natureza. Sendo ou deixando de ser triste, sigo trotando letras que inexistem em alfabetos, greco-romanos, cirílicos, proscritos... belas letras não me impressionam mais.

29 de setembro de 2007

Abraço

Abraços.
De um amor
abraço. Por um seu
abraço,
ando nu, vivo sem
tudo que me diz:
EU.

Sem ser mais só, eu,
sou todos nós,
em nossos e seus
abraços.

29 de setembro de 2007

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Unicamp, aqui vou eu!

Muita alegria e uma enxaqueca que se dissolve instantaneamente: acabei de saber que passei na seleção para o doutorado em Teoria e História Literária na Unicamp! Eu nem sei o que escrever, ainda estou completamente confusa, mas queria agradecer, aqui, a todos os amigos que, de perto ou de longe, me ajudaram na realização deste sonho: Profa. Cida, Profa. Maria José Palo e Profa. Sílvia, maiores incentivadoras e exemplos inspiradores; Prof. Bruno, Prof. Franscisco Foot e Prof. Vadim Kopyl, pela atenção e grande apoio; minha querida amiga Vé, por compartilhar os mesmos sonhos e o mesmo amor pela literatura; meu marido, meus pais e minha irmã, pela torcida, pela paciência e pelo estímulo constantes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Link


Há um link para flores, na fresta entre o caderno de economia e as ofertas de emprego.
Se puder, clique e dissolva-se no ar orvalhado das primeiras manhãs, molhando as pontas dos cabelos nas pétalas frescas.
Se não houver tempo, salve agora nos favoritos e retorne... breve e sempre.

Tudo que é sólido desmancha no ar.

A modernidade e suas questões são assuntos recorrentes nas mais diferentes situações, o que acaba banalizando seus conceitos, achatando seus sentidos. Marshal Berman, em "Tudo que é sólido desmancha no ar", dá vida nova aos múltiplos significados da modernidade, partindo do período de seu surgimento, no início do século XVI, até o século XX, passando por suas manifestações artísticas, literárias, arquitetônicas, estéticas e políticas numa linguagem leve e instigante.
Escrito originalmente em 1982 e relançado neste ano em edição de bolso (precinho ótimo) pela Cia. das Letras, o livro é delicioso de se ler e muito importante pra gente entender um pouco melhor as contradições da vida. Estou lendo e adorando! Recomendo.

BERMAN. M. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Tripartida


Enquanto entro no ônibus das sete, você permanece na casa cinco e ela presa no vão dos tacos, soltos, do corredor de entrada... ou de saída?

Para onde, se qualquer saída nos leva à entrada de um prédio incompleto: paredes dão para portas, entre janelas semi-cerradas, curvas em que derrapa-se a 100 quilômetros por hora.

O asfalto é escorregadio, a areia profunda e a terra é lama do que poderia ter brotado, de tanta semente jogada a céu-concreto.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Under Pressure

De volta ao trabalho, sem tempo pra escrever no blog, pouco tempo pra escrever tudo o que é preciso no trabalho... ouvindo Under Pressure, Queen e Bowie. Perfeito.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Liberdade vigiada

De hoje até 3 de setembro vou estar por aí, ainda não sei bem onde, mas longe do trabalho e do acesso aos "Diálogos e Intertextos". Espero, na volta, ter boas novas pra contar.
Beijos a todos e até ;-)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Dia-a-dia
Faz poesia,
Do dia-a-dia
que mata…
[a poesia]

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Eu

Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneos de frases ásperas
Onde
forcas
esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoços de torres
oblíquas

soluçando eu avanço por vias que se entrecruz-
ilham
à vista
de cruci-
fixos

polícias

Maiakóvski
1913
(Tradução de Haroldo de Campos)
CAMPOS, A. de, CAMPOS, H. de, SCHNAIDERMAN, B. "Poesia russa moderna". São Paulo: Perspectiva, 2001.

Nacos de Nuvem

No céu flutuavam trapos
de nuvem - quatro farrapos:

do primeiro ao terceiro - gente;
o quarto - um camelo errante.

A ele, levado pelo instinto,
no caminho junta-se um quinto.

Do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.

Um sexto salta - parece.
Susto: o grupo desaparece.

E em seu rasto agora se estafa
o sol - amarela girafa.


Maiakóvski
1917-1918
(Tradução de Augusto de Campos)
CAMPOS, A. de, CAMPOS, H. de, SCHNAIDERMAN, B. "Poesia russa moderna". São Paulo: Perspectiva, 2001.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

"You, who was born..."

You, who was born for poetry’s creation,
Do not repeat the sayings of the ancients.
Though, maybe, our Poetry, itself,
Is just a single beautiful citation.

Anna Akhmatova
1556

Translated by Yevgeny Bonver, July, 2002
Edited by Tatiana Piotroff, September, 2002
http://www.poetryloverspage.com/poets/akhmatova/you_who_was_born.html

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Existe "eu" fora do texto?

Acabei de ler uma matéria na Folha Online, sobre um autor polonês que se tornou suspeito de um crime ainda sem solução, ocorrido há mais de 5 anos, por causa de seu livro "Amók", no qual ele narra detalhes desse assassinato que, segundo o investigador, eram de conhecimento apenas da polícia e, certamente, do próprio assassino. A questão apontada na matéria é se ele realmente resolveu descrever seu crime perfeito, por orgulho ou algo do gênero, ou se apenas se utilizou das informações veiculadas pela mídia e foi além, criando situações fictícias que coincidem com os fatos reais levantados e conhecidos somente pela polícia.
A minha questão é a seguinte: até que ponto a visão dos investigadores, a análise dos indícios encontrados no estudo do caso, faz parte do real ou da ficção, já que tudo sobre o que a mente humana se debruça só pode ser entendido por ela por meio de interpretação?
Outro ponto a considerar é a dimensão ocupada pelo autor no universo textual criado por ele. Num estudo de teoria literária, o autor a ser analisado por meio de seu texto, pela investigação da voz autoral, nunca é uma "pessoa-em-si", existente fora do texto, mas sim, uma categoria narrativa, chamada de "autor secundário", por Bakhtin.
É muito fácil e raso interpretar um texto literário como autobiográfico a priori, fazer conexões entre a vida do autor e as vidas criadas por ele em seu texto. Não sei se o autor de "Amók" é culpado ou inocente e espero que os investigadores saibam como chegar à solução desse crime, mas sei que nós, leitores e escritores, não podemos ser inocentes ao olhar para o texto literário apenas como espelho do autor. Muito mais que refletir a vida, a literatura cria vidas.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Anna Akhmatova

Descobri, por acaso, um poema de Anna Akhmatova chamado "Ele gosta...", de 1910, e queria muito saber de que livro ele faz parte. Se alguém tiver uma dica, por favor, acene ;-)

À mulher que fica

Amanhã não serás mais a mesma.
Muda, caminharás em retorno a um ponto impreciso,
Onde jazem sonhos desidratados.

Incerta, seguirás marcas, sinais e promessas
Perdidas. (Anéis não gravados, poemas canhotos, porcelanas frias)
Emaranhado de vias obstruídas.

Minha querida e futura esquecida,
Não há mais nada a ser reencontrado.
Por você, vivi sempre em estado de alerta, tateando palavras e gestos elípticos, nada que pudesse tocá-la ou feri-la ...

Mas tua pele é branca, frouxa de seda antiga.
Nos metais de hoje, não resistes mais.


Andrea
07 de agosto de 2007

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Boris Schnaiderman e a vida no sentido mais feliz do termo.

Acabei de ouvir na Rádio Itaú Cultural www.itaucultural.org.br um programa de 30 minutos com Boris Schnaiderman, contando sua vida desde o nascimento, na Ucrânia, até seus dois últimos livros, ainda inéditos e que serão publicados em breve.
O professor Boris é um dos responsáveis por minha paixão pela literatura russa: ele é o tradutor de vários livros de Dostoiévski e, em especial, de "O eterno marido", o livro que eu trabalhei no mestrado. Apesar de não conhecê-lo pessoalmente, tenho um carinho especial e uma admiração enorme por seu trabalho de difusão da literatura russa no Brasil.
Vale a pena ouvir o programa e conhecer um pouco dessa linda história de vida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Infância II

Rasguei o tule.
Do tutu, voaram penas,
pequenas bailarinas
rodopiando ao vento.

Segui-as
floridas por sobre a estante,
mutantes pétalas-gira,
com pombas de cristal dançante.

[...]

Por trás da tv antiga, a caixa retangular preta guarda mornos segredos.
Favor não tocar com as mãos úmidas.


Andrea
2007

Memórias de Olivetti

O que havia de seu naquele instante de papel, rasgava-se a cada tipo, grafado em preto. Era como se o texto do outro, entreposto aos seus pontos finais, sobrepusesse suas conclusões, apagassem seu recomeço, manchassem sua palavra, última. Ponto parágrafo contravenção.
As fibras das folhas se desmachavam, borradas sob a tinta seca e imprecisa do metal. Foscas chispas pigmentadas a pó, da fita pro ferro à força: papel.
Da margem ao espaço derradeiro, nenhum registro. Só raspas de letras-sur-letras negridas de luto.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Antonioni, além das nuvens


Eu assisti a "Além das Nuvens" em 1995 ou 96, não me lembro da data exata, no Espaço Unibanco de Cinema, na Augusta. Apesar de saber que o filme era do Antonioni, me interessei mais por ser resultado de uma parceria com o Win Wenders, que eu já conhecia e adorava. Foi em "Além das Nuvens" que eu vi uma das cenas mais bonitas do cinema. A chegada, por mar, a Portofino, na costa da Ligúria - parecia uma imagem de cartão postal ganhando vida, lentamente, com a câmera se aproximando e revelando a cidade como que pelo olhar de um viajante, extasiado pela beleza increditável do lugar.
As cenas gravadas depois que a câmera já entrou na cidade, as ruelas estreitas e sinuosas, cercadas por muros cobertos de hera, nunca mais me deixaram. E até agora, passados mais de 10 anos, a lembrança é tão forte como se eu tivesse, realmente, andado por elas - caminhos orgânicos, úmidos, vivos.
Li que Antonioni morreu, ontem, aos 94 anos, em Roma. Seu corpo será sepultado em Ferrara, sua cidade natal. De sua rica filmografia, só conheci "Além das Nuvens"... mas as cenas que ficaram dele, de todos os filmes que vi, são as que permanecem mais vivas no meu coração.
A Antonioni, além das nuvens, as mais belas e vivas imagens, sempre.

A foto do porto de Portofino é de Stan Shebs, disponibilizada para uso livre na página da Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Portofino_harbor_right.jpg

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Impressões do XI Encontro da Abralic

Gostei muito do último encontro da Abralic, principalmente da conferência da Leyla Perrone-Moisés, sobre a crise do ensino da literatura na França, e de todo o simpósio sobre literatura russa.
Vou organizar minhas anotações, durante o final de semana, e até a próxima terça-feira acho que consigo postar aqui alguns dos pontos levantados.
Só pra adiantar, deixo a frase de Sartre, citado por Leyla Perrone no encerramento da sua fala:
"O mundo pode passar muito bem sem a literatura. Mas pode passar muito melhor sem o homem".

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Planos de vôo e de vida

A cada acidente, quantos planos acalentados neste plano se esfacelam no arremesso das consciências para outros planos, nos quais aqueles planos se desintegram? Talvez... ou morrem na inconsciência de quem os carregava, passando a viver apenas como memória nas consciências dos que ficam, neste plano, órfãos dos planos dos outros, em planos outros.

Em cada invólucro móvel ou estático - em vias aéreas, terrestres, marítimas -, milhares de sonhos vibram em vida, preciosa, frágil substância, que se enforma na lírica da poesia cotidiana e se desfaz, absurdamente, em prosa trágica.


19 de julho de 2007

terça-feira, 17 de julho de 2007

Sonho

Não há como ser feliz vivendo entre seres que jogam bebês no lixo, abandonam cachorros velhos, velhos doentes, agridem gatos, matam... sem razão. Meu sonho era viver num mundo onde nunca houvesse um animal abandonado, nenhum velho jogado num banco de praça.

terça-feira, 10 de julho de 2007

De 23 a 25 de julho acontece o XI Encontro da ABRALIC - Associação Brasileira de Literatura Comparada, lá na FFLCH/USP. Quem quiser saber mais, vale uma olhadinha no site www.abralic.org.br

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Felícia Leirner

Em tempos de Festival de Inverno e milhares de turistas se acotovelando em Campos do Jordão, me lembrei de um dos lugares mais queridos da minha memória: Museu Felícia Leirner, com esculturas expostas a céu aberto, entre jardins e flores do parque do Auditório Cláudio Santoro.
Desde a primeira vez que estive lá até hoje, sinto a mesma vontade de ficar para sempre, como se eu pudesse viver ali.
A lembrança me fez pesquisar sobre Felícia na internet e acabei encontrando Sheila Leirner, crítica de arte, neta da escultora e editora de um blog lindo como ela, que me fez sentir em casa como as esculturas da avó sempre fizeram. Acabei de incluir o link aí na listinha dos mais queridos e recomendo, mesmo.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Poema Andante

Enquanto eu posso
Sigo,
Passos
Que não foram meus.

Antes,
Passavam outros,
Tantos
Deixaram-se ir.

Não sei todos os caminhos.
Sigo
As letras, placas,
Percalços já percorridos,
Repito.

Carrego trôpegos sonhos,
Nas pernas que me foram dadas,
Ando,
Sigo,
Sorriso,
Enquanto eu posso


2007

O Casulo

Recebi o número 5 de "O Casulo" - um jornal independente de Literatura Contemporânea publicado pelos organizadores do Projeto Identidade e da Flap.
Achei o trabalho muito legal, consistente e corajoso. É muito difícil, para quem escreve por conta própria, sem o apoio das grandes editoras e da imprensa especializada, encontrar um espaço não só para publicar seus textos, mas também para receber a leitura crítica de outros autores.

Para conhecer melhor, é só clicar no link.

Infância

Não foi sempre assim.

Tinha fruta no galho,
Goiaba na bacia de alumínio
no quintal,
brincar de piscininha...

Água cristalina,
entre as sombras das folhas
do abacateiro,
escorria marrom pelo chão
de terra e cimento.

Eu ouvia o vizinho:
Meninos
brincando gritam.
Saudades...

Eu era sozinha.


2007

Saída

Torço pelo dia. Passe, desintegre-se. Deixe-me ir a outros planos, outras formas e cenários.
Novas sonoridades nas bocas da pessoas, cheiros desconhecidos, hábitos que ainda não me habitam. Não mais.

2007

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Inventário Invertido

Perdi cabelos, pelos, pele, sóis das 7h30, shows, vagas na primeira fila, dinheiro, chaves, uma blusa de cashmere vermelho, uma aliança, dois livros, um dicionário de alemão, namorados descartáveis, amores purpúreos, valsas de 15 anos, baile de formatura, um apartamento, um chevette verde, milhagens da Tam, meu celular, algumas horas de sono, o monte Saint-Michel, um argentino em Paris, le sacre-couer, o castelo de Versailles, um sobretudo em Nantes, minha certidão de nascimento, uma conta de telefone, um par de botas pretas de canos baixos e saltos altos, anos sem brincar com meus cachorros, meses chorando por besteiras, tempo demais querendo ter o que eu não devia, classe, paciência, medo de dirigir, massa muscular, ciúmes, muitas amizades, poucas importâncias, minha vontade de ser perfeita.

Se você encontrar algum desses pertences, favor enviá-los ao meu antigo endereço: passado enterrado, inúmero, cep esquecido.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

O sol se põe em São Paulo

Estou lendo o último romance do Bernardo Carvalho "O sol se põe em São Paulo" e gostando muito. As imagens de um passado não vivido, que se tenta recriar em lugares desconhecidos, constroem a fragilidade das relações, as incertezas de existência do eu e do outro. A cara do nosso tempo. Recomendo.

Pra ler:

CARVALHO, Bernardo. O sol se põe em São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Alegria



Queria registrar aqui que, ontem, 10 de maio de 2007, defendi minha dissertação de mestrado em Literatura e Crítica Literária "A dúvida em discursividade: Machado de Assis e Dostoiévski", na sala 500B da PUC. Foi uma experiência inesquecível, que eu tive a alegria de compartilhar com meus pais, meu marido e amigos muito especiais. Obrigada a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização desse sonho.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Sexta-feira

Da chuva que passou ficou o tempo.
Seco, só e nu, nenhum lamento.
No asfalto a borracha canta os freios.
Cheiro de queimado, solo, negro.

Dentro, a poesia ficou muda,
Tonta de cinzentos ares mofos.
Vozes que se calam, fogem gritos
Dia de silêncio, tédio em luto.

E se fossem vivas só palavras?
Doces, melodias em sussurros.
Toques, fossem sempre, gentilmente
Quentes, 32 graus, pele nua.

Lá ia eu dizer já que te amo.
Ia em ti amar de mil maneiras.
Pena que o que eu sei já não me engana.
Morre na poeira ao fim do dia.



2004

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Flores sem Cartão


Eu pensei que você tinha notado:
Meu sorriso era só brincadeira.
Preste atenção no que eu não disse:
Tudo é tão claro quando eu nada sinto.

06 de novembro de 2001

Amor: de 20 a 30.

Não me venha com angústias
Embrulhadas pra presente.
Tenho as minhas,
Tem as suas.

Não me sirva carências
Em bandeja de prata:
Tenho-as na despensa,
Em conserva.

Leve daqui suas feridas:
Não as abri, nem as curei.
Use alvejante pra lavar seu sangue
da minha pele branca.

Meu beijo: antisséptico bucal.
Meu coração: do freezer ao microondas
Mas não pra você.
Só pra você.

2001

Quererê

Quero muito ...
E de ti, por querer tanto,
Quero sim, quero mais ...
Se não outros.

Vou querendo e que tanto quero ...
Desespero em desquerer ter,
Saber ser,
Sem crer.

Desquerendo o que em mim queria,
Desembrulho outras de mim:
As que nunca quiseram sempre,
As que querem se for para bem.

Meus quereres,
Os quero longe:
não cabem em mim.




2007

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Sabatina

Era sábado,
Sem sombra de dúvida.
Tão sábado quanto poderia ter sido
Um dia de promessa.

Sem velas:

Aos sábados,
Só preces veladas,
Procissões profanas,
Aos santos sem votos.
Pedidos perdidos,
Rosário de contas
De cristal barato,

Sextavado.

Era um sábado,
Como todos os outros:
Cotidiano,
Reinventado.
De pecados remissíveis,
Condenáveis
Em quaisquer
Não-sábados.

Aos amores sabatinados,
Naquela pré-noite de sábado,
Oro aos domingos:

Alívio.



2007

segunda-feira, 23 de abril de 2007

De novo, Vinícius.


Acabei de assistir ao documentário "Vinicius". Lindo, simples, despretensioso, raro, como Vinicius. Pra celebrar:

POÉTICA

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.


Vinicius de Moraes
Nova York, 1950

In: Nova Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Agruras do meu velho mac

Amigos, tenho tido algumas dificuldades técnicas para manter o blog atualizado diariamente, como eu gostaria. Eu tenho um mac muito velho que, aliás, nem é meu, e que apesar de fofo já apresenta sinais de velhice, como sistema operacional pré-histórico e incompatibilidades diversas com navegadores em geral. Então, tem sido um parto conseguir postar alguma coisa, mas queria agradecer a todos os coments que eu ainda não consegui responder e que me fazem continuar burlando o tempo e assaltando os computadores vizinhos só pra passar por aqui. Beijos.

Vermelho-Verdade

Não foi pra você
A melhor poesia.
A seda rasgada,
Cantada de esquina

Não foi pra você meu pior vexame
Minha grande loucura
A dor mais sofrida

Pra você, só foi o que eu tinha
À mão, de improviso,
No embrulho sem fita:

A vida sem filtro,
A sem-cerimônia,
O eu sem vergonha,
O sol de domingo,
Os olhos sem lápis,
A boca mordida,
O amor por inteiro,
Verdade sem tinta.


2004

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Pausa


Café se mistura ao ventilador,
Estou tão presente.

No fundo da xícara, melada no açúcar
Sou tempo,
Fração do seguinte momento,
Indício de incerta existência.

Enxergo no pires,
Em bolhas de âmbar,
Silêncio.

Ao lado, só, segue a vida.


Andrea
2004

terça-feira, 10 de abril de 2007

Meu Primeiro Poeta

Eu não vim de uma família com hábitos de leitura, meu pai não tinha uma biblioteca em casa, minha mãe não me dava livros de presente nem lia estórias pra eu dormir. Engraçado, acho que, para mim, isso não fez a menor diferença. Eu sempre gostei de ler, escrever, desenhar... sem que ninguém precisasse me incentivar para isso.
Meu primeiro poeta foi Vinícius, claro. E eu nem me lembro como o conheci. Mas me lembro bem dos "Sonetos" que encantavam meus 14 anos. Pra não esquecer:


O mais-que-perfeito


Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me!

Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes...
Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!

Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te...

Vinicius de Moraes
Montevidéu, 01.11.1958
in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu"
in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"

Pra ler mais: www.viniciusdemoraes.com.br

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Por que publicar poesia?


Antes, era fundo de gaveta. Agora, pasta de arquivos pessoais. Como me disse o Jair, "é engraçado saber que alguém que você conhece escreve poesia, porque quem escreve poesia sempre esconde o que escreve".
Na semana retrasada, eu assisti a uma oficina de literatura na Univap, numa sala do quinto período de Letras. O escritor palestrante, depois de expor sua poesia cantada e escrita, teve que insistir muito para que os alunos que escreviam ou compunham apresentassem seus textos. Passada a "semgraçisse" inicial, as pessoas começaram a ler seus poemas, alguns interpretaram histórias, contaram casos, tocaram e cantaram com um talento surpreendente. Eu, que estava ali cumprindo minhas horas obrigatórias de estágio-docência, saí de lá emocionada. É muito legal ver gente comum, envolvida em atividades comuns, criando meios de linguagem e expressão artística incomuns.
Para essas pessoas, não há espaço nos meios convencionais. É difícil e caro publicar um livro - mais ainda divulgá-lo e vendê-lo, gravar um CD, participar de saraus, eventos... mas é fácil, muito fácil colocar seu trabalho na internet.
Por isso, estou colocando meus poeminhas aqui, tirando do fundo da pasta de arquivos pessoais um ou dois deles por dia. Eles fazem parte de um livro que eu comecei a escrever em 2003, entre os textos de propaganda, chamado "Letras do Dia". Espero, amigos queridos, que vocês gostem e sintam-se à vontade para comentar e participar, também, com seus textos. Pra começar o dia, pra ler mais belas letras do que as do dia-a-dia, pra sentir que a gente se faz mais gente quando se expressa em poesia.

Presença nº 5

Eu amo o cara que passa
Longe
Em minha memória
Sempre
A tempo Presente
Vivo
Num passado novo.

Passa reinventado,
Passo e permaneço,
Muda
Lhe reitero,
Morta, lhe vivifico.

Eu vejo o cara que passa
Em tantas e outras caras
Antes
Que eu mesma saiba
Quão caras a mim serão.

Antes que me soubesse,
Tudo o que não me saiba
Ainda.


Andrea de Barros
2006

Idade


É o tempo,
Que lhe corta os dias
O mesmo
Que me conta os casos,

Dos quandos,
Que eu não mais ouvia,
Aos comos
Sem porquês dos atos.

É dele
Meu desenho à pele,
O mapa pelo qual escapo
Da velha juventude eterna.

Ao tempo
Meu melhor bom dia.
Sem medo do que o sol me tira
Me farto do que a luz me soma.


Andrea de Barros
2004

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Canção para não dormir

Por que escrever?
Se é preciso amar, fazer,
sorrir, viver até…
morrer.

Por que da solidão
Nascem as letras?
Tão sem pra quem,
Mudas,
Inutéis.

Quem quer ver meu lado avesso?
Botar preço no poema?
Viver de poesia?

Histeria.

Não há tempo à ironia
E pra qualquer melancolia:
Tratamento.
Duas pílulas por dia.


Andrea de Barros
2007

Bakhtin: teoria da prosa em forma de poesia


Quanto mais leio Bakhtin, mais me impressiona a poesia da sua escrita teórica. Alguns trechos inspiradores:

"A vida e a arte não devem só arcar com a responsabilidade mútua mas também com a culpa mútua. O poeta deve compreender que a sua poesia tem culpa pela prosa trivial da vida, e é bom que o homem da vida saiba que a sua falta de exigência e a falta de seriedade das suas questões vitais respondem pela esterilidade da arte." (2003, p. XXXIII)

"Quantos véus necessitamos tirar da face do ser mais próximo - que nela foram postos pelas nossas reações casuais e por nossas posições fortuitas na vida -, que nos parecia familiar, para que possamos ver-lhe a feição verdadeira e integral. A luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em um grau considerável, uma luta dele consigo mesmo." (2003, p. 4)

“Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão de forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Questão do grande tempo.” (2003, p. 410)


Para ler mais:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Literatura e Liberdade compartilham muito mais que as letras iniciais. Escrever sempre foi meu maior exercício de liberdade, meu campo de ação sem limites.
Já o texto, corpo expressivo da Literatura, se obriga a seguir regras de gênero, de mercado, de ideologia, enfim, dos meios dos quais depende e das funções às quais se presta. Trabalhar com texto publicitário, há 15 anos, me ensinou que para cada palavra existe um espaço, um tempo, um valor e muitos objetivos que precisam ser respeitados. Não há verba publicitária para expressão artístico-pessoal, assim como não há, nem nunca deverá haver, preço para um poema.
Eu acabo de concluir minha dissertação de mestrado, na área de Literatura. Depois de pouco mais de dois anos num mergulho livre e fundo no universo literário, percebi que a liberdade do escritor, do leitor, do teórico e do pesquisador são as mesmas. A leitura e a análise do texto literário podem ser tão livres quanto a sua criação, já que o objeto literário só se mantém vivo e atemporal quando aberto a múltiplas interpretações.
Essa experiência acadêmica com o texto, na Literatura e sobre a Literatura, me estimulou ainda mais a escrever livremente, retomar minhas poesias, meu blog e, quem sabe, abrir novos canais de liberdade e expressão. É nesse ponto que surgem esses "Diálogos e Intertextos", espaço para mim, para você, para textos lidos, relidos e translidos.
Já tive outros blogs, como o Letra Sete e o Letras do Dia... e abandonei-os completamente depois de alguns posts e meses. Não os lamento. O abandono é parte dessa liberdade que só a escritura traz a mim e, desejo, possa levar também a quem me lê.

 
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