Ontem aprendi que, na língua russa, não existe o verbo ter. Não há como dizer literalmente, em russo, que eu tenho alguma coisa. É preciso aplicar uma estrutura frasal para expressar posse, algo que poderia ser traduzido como "Por mim, tal coisa existe".
Isso me faz pensar nas minhas próprias relações de posse, no que julgo ter mas sei bem que não sou dona, senhora, de nada nem ninguém. As coisas que amo e das quais eu cuido existem, por meus cuidados, por meu amor, por minha necessidade delas para viver, para ser feliz ou, simplesmente, para sobreviver.
Nessa relação, a "posse" deixa de ser unilateral e soberana. O que "existe por mim" é tão meu quanto sou dele, à medida que nossas existências se revelam, na expressão russa, como interdependentes.
Grata ao idioma e ao povo russo, pela inspiração à reflexão, espero não me esquecer mais desse conceito e que ele continue "existindo por mim".
Cêra Isa
Há 8 anos
7 comentários:
Nossa que bacana! Adorei -)
Que bom que vc gostou, Anderson :-) Valeu!
Que interessante, Andrea. Mais interessante ainda sua reflexão sobre a língua russa. Depois dessa, aguardo ansiosa seus anúncios lá no Palimpsesto, pode ser em russo!
Beijos e saudades,
Vé
Oi Vé! Muito legal a sua idéia dos anúncios, divertidíssima :-) E quem sabe eu consigo fazer um bilíngue, né?
Beijos!!
Fantástico!
As línguas são muito mais do que meros instrumentos de comunicação. A sua reflexão mostrou muito bem isso. A cultura e o que somos pode ser explicitada pela nossa língua.
E de novo afirmo, curiosidade fantástica!
Sucesso!
Victor Hugo
Oi, Vitor Hugo! É por isso que eu amo tanto estudar línguas e espero ainda conhecer bem algumas delas.
Muito obrigada pelo apoio e pela visita :-)
Abraços,
Andrea
É, realmente começo a pensar que, em certas culturas, tudo é de todo mundo.
Vai ver que assim nossa solidão pode se repartir, nossa alegria se espalhar e nossos sonhos se realizar.
Acho que em um ambiente onde as coisas existem, não simplesmente porque devem existir, mas porque dependem de outras para existirem, é concedido a nós o poder sermos
condicão de existência de certas coisas.
BEM interessante.
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