segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Existe "eu" fora do texto?

Acabei de ler uma matéria na Folha Online, sobre um autor polonês que se tornou suspeito de um crime ainda sem solução, ocorrido há mais de 5 anos, por causa de seu livro "Amók", no qual ele narra detalhes desse assassinato que, segundo o investigador, eram de conhecimento apenas da polícia e, certamente, do próprio assassino. A questão apontada na matéria é se ele realmente resolveu descrever seu crime perfeito, por orgulho ou algo do gênero, ou se apenas se utilizou das informações veiculadas pela mídia e foi além, criando situações fictícias que coincidem com os fatos reais levantados e conhecidos somente pela polícia.
A minha questão é a seguinte: até que ponto a visão dos investigadores, a análise dos indícios encontrados no estudo do caso, faz parte do real ou da ficção, já que tudo sobre o que a mente humana se debruça só pode ser entendido por ela por meio de interpretação?
Outro ponto a considerar é a dimensão ocupada pelo autor no universo textual criado por ele. Num estudo de teoria literária, o autor a ser analisado por meio de seu texto, pela investigação da voz autoral, nunca é uma "pessoa-em-si", existente fora do texto, mas sim, uma categoria narrativa, chamada de "autor secundário", por Bakhtin.
É muito fácil e raso interpretar um texto literário como autobiográfico a priori, fazer conexões entre a vida do autor e as vidas criadas por ele em seu texto. Não sei se o autor de "Amók" é culpado ou inocente e espero que os investigadores saibam como chegar à solução desse crime, mas sei que nós, leitores e escritores, não podemos ser inocentes ao olhar para o texto literário apenas como espelho do autor. Muito mais que refletir a vida, a literatura cria vidas.

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