Acabei de ler uma matéria na Folha Online, sobre um autor polonês que se tornou suspeito de um crime ainda sem solução, ocorrido há mais de 5 anos, por causa de seu livro "Amók", no qual ele narra detalhes desse assassinato que, segundo o investigador, eram de conhecimento apenas da polícia e, certamente, do próprio assassino. A questão apontada na matéria é se ele realmente resolveu descrever seu crime perfeito, por orgulho ou algo do gênero, ou se apenas se utilizou das informações veiculadas pela mídia e foi além, criando situações fictícias que coincidem com os fatos reais levantados e conhecidos somente pela polícia.
A minha questão é a seguinte: até que ponto a visão dos investigadores, a análise dos indícios encontrados no estudo do caso, faz parte do real ou da ficção, já que tudo sobre o que a mente humana se debruça só pode ser entendido por ela por meio de interpretação?
Outro ponto a considerar é a dimensão ocupada pelo autor no universo textual criado por ele. Num estudo de teoria literária, o autor a ser analisado por meio de seu texto, pela investigação da voz autoral, nunca é uma "pessoa-em-si", existente fora do texto, mas sim, uma categoria narrativa, chamada de "autor secundário", por Bakhtin.
É muito fácil e raso interpretar um texto literário como autobiográfico a priori, fazer conexões entre a vida do autor e as vidas criadas por ele em seu texto. Não sei se o autor de "Amók" é culpado ou inocente e espero que os investigadores saibam como chegar à solução desse crime, mas sei que nós, leitores e escritores, não podemos ser inocentes ao olhar para o texto literário apenas como espelho do autor. Muito mais que refletir a vida, a literatura cria vidas.
Cêra Isa
Há 8 anos
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