"Capitu" e "Som & Fúria" foram as melhores minisséries que assisti na TV pública nos últimos anos. Em ambas, a estética teatral dá o tom de originalidade às produções, fazendo com que o olhar cansado do telespectador desperte para novas cores, uma outra profundidade e ângulos não tão óbvios. Flashes de realidade fantástica sacudindo as narrativas domesticadas da linguagem televisiva.
Em relação à "Capitu", que conseguiu manter-se rigorosamente fiel ao texto machadiano, revelando o quão atual essa literatura se mantém diante da percepção fragmentada da pós-modernidade, me chamou atenção a idiotice com que certos "críticos" a avaliaram. Diogo Mainardi foi um dos que usou um espaço privilegiado na mídia, uma página na Veja, para acusar a minissérie de desvirtuar a obra machadiana, de violar Machado de Assis e Dom Casmurro, como se autor e obra fossem mitos sagrados e, portanto, não passíveis de leituras profanas. Para mim, ao contrário do que pensa Mainardi, uma obra importante, seja a de Shakespeare, a de Machado, ou a de Ana Cristina César, deve ser lida e relida sob formas e olhares novos, contraditórios, questionadores, em qualquer tempo. Nada de congelar textos e olhar para eles como símbolos do passado. A obra só se mantém viva pelo olhar do leitor ou, do telespectador, do internauta, de quem quer que possa ter acesso a ela pelas mais diversas formas.
"Som & Fúria" fez algo semelhante com Hamlet, Macbeth e Romeu e Julieta. Não os tirou dos grandes palcos, não os deixou menores, apenas trouxe fragmentos de Shakespeare para as telinhas caseiras (e com grande sensibilidade artística e técnica).
Torço para que produções como essas, nas quais a grande literatura pode chegar a um vasto público, sejam cada vez mais frequentes na TV pública brasileira.
Cêra Isa
Há 8 anos
3 comentários:
Olá Andréa, também vi e adorei ambas as minisséries; todavia a sra grobo só pensa mesmo em dinheiro e audiência; o ator que faz d. casmurro pra capitu foi simplesmente demitido; já som e fúria, como não vendeu feito carne moída- a pemba da audiência- não terá continuação...e pensar que Fernando Meirelles desistiu do cinema pra fazer televisão- tv aberta, companheira, só faz tralha vendável, não adianta.
Olá Andréa.
Qual será o feitiço de Dom Casmurro, mesmo após duas, três ou quatro leituras, ainda consegue nos prender como se a primeira vez fosse?
Que poderá responder?
Um abraço.
www.terapiadecutuvelo.blogspot.com
Oi Rubem! Esse é mais um dos enigmas de Dom Casmurro :-) Aliás, acho que essa é a característica comum dos clássicos, renovarem-se a cada nova leitura. Sorte de nós, leitores ;-)
Um grande abraço!
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